
RIO DE JANEIRO – A Polícia Federal do Brasil anunciou o fechamento de uma unidade especial anticorrupção, uma medida criticada pelos promotores porque poderia afetar as investigações que expuseram a corrupção sistêmica entre as elites políticas e empresariais do país.
A decisão foi anunciada no momento em que o presidente Michel Temer, recentemente acusado pela Procuradoria-Geral da República de corrupção após investigações daquela unidade, busca obter o apoio de deputados para evitar ser indiciado.
Se três quartos dos 513 deputados da Câmara dos Deputados votarem a favor da aceitação das acusações contra Temer, ele seria afastado da presidência e processado pelo Supremo Tribunal Federal.
A Polícia Federal divulgou na quinta-feira o desmantelamento da equipe da Lava Jato. Em nota , a agência indicou que a decisão foi tomada “para priorizar novas investigações” e melhorar a eficácia.
Segundo o comunicado, os integrantes da Lava Jato serão integrados à principal divisão anticorrupção “para aumentar as forças especializadas no combate à corrupção e à lavagem de dinheiro e facilitar a troca de informações”.
Os integrantes da equipe, assim como a Associação Nacional dos Advogados e a Federação dos Policiais Federais, criticaram a justificativa.
Segundo os procuradores que compõem a unidade especial, a decisão é “um claro revés” para a equipe, que ainda está em processo de análise de provas e obtenção de possíveis pistas.
Desde que foi criado, em 2014, o grupo, sediado em Curitiba, tem operado com bastante autonomia ao expor um sistema de propina e clientelismo utilizado por todas as classes empresariais e todas as facções partidárias. As investigações surtiram efeito além do Brasil, pois provas e testemunhas revelaram sistemas semelhantes em empresas brasileiras que têm projetos em praticamente toda a América Latina.
A investigação começou como uma investigação rotineira de lavagem de dinheiro em um posto de gasolina, mas agora afetou a Petrobras, a estatal de petróleo, e mais de 280 pessoas, incluindo dezenas de legisladores e alguns dos magnatas mais ricos do Brasil. Outras centenas estão sob investigação.
Os membros da Lava Jato também recuperaram mais de US$ 3 bilhões e dizem que poderiam devolver bilhões a mais ao tesouro brasileiro se tivessem os recursos e o tempo necessários.
Leonardo Coimbra, diretor da Polícia Federal desde 2011, deu muita independência à unidade da Lava Jato, cujo trabalho já rendeu a prisão de figuras poderosas como o ex-presidente da câmara Eduardo Cunha, condenado a 15 anos de prisão no ano passado Março . .
Em maio, Temer nomeou Torquato Jardim, seu aliado político, como Ministro da Justiça; essa pasta fiscaliza a Polícia Federal. Um mês depois, Temer – que assumiu o poder após o impeachment de Dilma Rousseff, cujo resultado teria sido influenciado pelas revelações do caso Petrobras – foi acusado de aceitar propina de US$ 152 mil de um empresário do setor de carnes.
Os promotores disseram que poderiam apresentar acusações adicionais contra o presidente nas próximas semanas.
Eloísa Machado de Almeida, professora de direito da Fundação Getulio Vargas, em São Paulo, disse que o desmantelamento da unidade da Lava Jato tem o claro intuito de enfraquecer as investigações que podem atingir os homens mais poderosos do país.
“Se a Lava Jato não conseguir responsabilizar a classe política, principalmente os que estão no poder, terá servido apenas para passar o poder de uma classe política para outra sem ter conseguido as reformas institucionais que esperávamos desse tipo de investigação”, afirmou.
Um porta-voz de Temer disse que o presidente não interfere nos “assuntos internos” da Polícia Federal, mas não disse se estava ciente das mudanças.
O sindicato da Polícia Federal, Federação Nacional dos Funcionários, manifestou preocupação com o desmantelamento da unidade, que descreveu em nota como “a operação mais bem-sucedida” dessa força policial.
Segundo o documento, ao absorver os investigadores da Lava Jato no aparato geral da organização, eles serão submetidos a “procedimentos excessivamente burocráticos” que até então conseguiram contornar. “Você não muda um time quando ele está ganhando!”, disse o sindicato.
Igor Barros é um repórter fotográfico do Brazilian Post com vasta experiência em capturar imagens que contam histórias impactantes. Com um olhar sensível e criativo, suas fotografias oferecem uma perspectiva única sobre os principais eventos e temas em destaque no Brasil e no mundo.