As IT Bags não são mais as mesmas, e essa é uma boa notícia

Relembramos a sua história e entramos no mundo novo de uma das mais importantes fontes de receita para as marcas.

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Chame isso de efeito Beyoncé. Quando apresentou ao mundo o álbum Renaissance, em julho de 2022, a cantora estadunidense entregou, na última faixa, um pequeno vislumbre de seu closet. Caso você tenha ouvido repetidamente, já sabe: a música “Summer Renaissance” lista algumas grifes usuais, como Louis Vuitton, Prada e Givenchy, até chegar a uma mudança radical. “Tão elegante e atrevida essa bolsa Telfar importada”, canta ela. “Birkins? Essas merdas estão guardadas”. Trata-se das IT Bags.

Ali, sem rodeios, a artista declarava que a famosa Birkin, da Hermès, outrora pilar do alto luxo, deve agora ser substituída pela Buschwick Birkin, apelidado dado à shopping bag da Telfar. A bolsa favorita de Beyoncé, também usada por Oprah Winfrey, Zoe Kravitz e Dua Lipa, é vegana, criada por um designer negro e com um preço inteligente de pouco menos de 300 dólares. Com um monograma em alto relevo, o modelo é relativamente simples, mas o que o diferenciava era a ideia de que o acesso a grandes peças não deveria ser limitado.

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Dua Lipa usando a bolsa Ana, da Luar.Foto: Getty Images

As ITs Bags

Nas últimas décadas, o termo it bag foi dissecado, declarado morto e ressuscitado ano após ano. E era sempre a mesma coisa, dessa vez era de verdade, o fenômeno da bolsa mais desejada, disputada, aclamada voltou para valer. Acontece que o acessório em questão era sempre de uma marca europeia com o preço na casa dos cinco dígitos e que, em alguns casos, até exigia um relacionamento especial com os consultores de vendas para ser adquirido. Sem falar nas listas de espera que variam de muitos meses a alguns anos. 

As transformações em tal conceito são recentes. Na época, as mulheres estavam adentrando o mercado de trabalho e estabelecendo uma vida ativa fora de casa. Os designers tomaram nota. Quem liderou o caminho foi a Bamboo, da Gucci, criada pela escassez do couro. Logo depois, foi a vez da Kelly, da Hermès, e da 2.55, da Chanel.

A década de ouro

Quando a logomania dominou a esfera do luxo, nas décadas de 1990 e 2000, o negócio decolou. Ali, carregada pelas estrelas – de reality shows ou de cinema – e cobiçada pelas massas, as it bags convergiam para o apogeu da cultura pop. Para as etiquetas, o que antes era um trabalho do departamento de marketing, agora, era dos paparazzis. Você deve lembrar: Kate Moss não largava a sua Motorcycle, da Balenciaga; Sex and the City fez a Baguette, da Fendi, ser popularmente conhecida; e, nas mãos de Paris Hilton, a Speedy, da Louis Vuitton, se tornava um hit. 

Era tudo sobre desejo, listas de espera e status social. Essa construção era o testemunho de ótimos designs e de uma estratégia bem calculada. Naquele momento, as casas de luxo, que antes eram de propriedade familiar, estavam sendo compradas por grandes conglomerados, como LVMH e Kering (então Gucci Group e depois PPR) com canais de distribuição globais. E é aí que o mercado de acessórios, assim como o de perfumes, desbancou o do vestuário, tornando-se um dos mais lucrativos para as empresas do setor.

No entanto, em uma oscilação no pêndulo da moda, veio a crise financeira de 2008, o sucesso do luxo silencioso proposto por Phoebe Philo e, com o streetwear, a ascensão do tênis it.

Durante muitas gerações, ensinava-se às mulheres que o valor de seu guarda-roupa residia em logotipos reconhecíveis. Embora as bolsas não tenham perdido o seu lugar por inteiro, havia novos comportamentos culturais sendo estimulados, fazendo com que a atenção ficasse no mínimo dividida.

Em 2020, quando o item parecia fazer um retorno graças ao impulso de marcas como Bottega Veneta e Jacquemus, chegou a pandemia, reduzindo as vendas em até 28% em todas as regiões do mundo.

Carrie Bradshaw

Mais de 20 anos depois de Carrie Bradshaw declarar “this is not a bag, its a Baguette”, há uma geração de designers inaugurando uma nova era na história das it bags, apoiada pelas mulheres que as carregam. Observe Bella Hadid, por exemplo.

A modelo tem uma grande coleção de bolsas de marca, porém postou recentemente no Instagram que a sua preferida é de uma nova empresa de Nova York chamada Florist.

Luar, de Raul Lopez, é outro hit. Nos braços de Dua Lipa e Solange Knowles, as bolsas da marca homenageiam as raízes dominicanas da avó e da mãe do estilista. Essa conexão entre patrimônio cultural e design, que leva a resultados altamente pessoais referentes às origens dos estilistas, também tem inspirado Brother Vellies e Brandon Blackwood.

Sucesso brasileiro

Enquanto a primeira emprega artesãos quenianos, a segunda celebra a ascensão da comunidade negra. No Brasil, o sucesso das opções criadas pela Misci e por Alexandre Pavão também são reflexo desse movimento.

O que todas as marcas parecem têm em comum é o empenho em criar bolsas com formas variadas, preços competitivos e, principalmente, com alguma mensagem. Dando um passo adiante ao criar vínculos inabaláveis, a moda sinaliza mudanças nos princípios do luxo. O atual juízo, porém, tem menos a ver com telegrafar riqueza e mais com senso de distinção, conhecimento e humor.

Se você vê uma mulher carregando uma bolsa Telfar e estiver segurando uma também, é provável que tenham interesses, valores e perspectivas semelhantes. It bags, sejam elas qual for, para sempre irão possuir um cachê cultural, e não há nada de errado com isso. Mas, enquanto as antigas provocam apenas um elogio, as novas são o início de uma conversa.

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